Nos Domínios da Mediunidade

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Nos Domínios da Mediunidade

Título: "NOS DOMÍNIOS DA MEDIUNIDADE" – Edição consultada: 34ª Edição/2010 
Autor: Espírito ANDRÉ LUIZ (pseudônimo espiritual de um consagrado médico que exerceu a Medicina no Rio de Janeiro)
Psicografia: FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER (concluída em 1954).
Edição: Primeira edição em 1954, pela Federação Espírita Brasileira (Rio de Janeiro/RJ)

Conteúdo doutrinário:


ANDRÉ LUIZ, com sua abençoada perspicácia, dedicou esta obra inteiramente à mediunidade, com isso ofertando-nos a visão “do Céu para a Terra”, em contraponto à visão “da Terra para o Céu”.


Em vários pontos, cita o papel da Ciência na jornada evolutiva do Espírito e explica: a Ciência, buscando compreender cada vez mais os fatos da alma humana — muitos deles, na verdade, ligados ao intercâmbio dos dois Planos — , vem compreendendo as sublimes nuanças da mediunidade.

Por enquanto, nomeia tais fatos com palavras algo complicadas, mas que não passam de rótulos...

Contudo, sendo o progresso Lei Divina, não tardará a identificar que o intercâmbio com o Plano Espiritual é manancial inapreciável de possibilidades construtivas da pax omnium (paz de todos), que nada mais é do que a somatória da pax personæ ad persona (paz de pessoa a pessoa).


E complementa: Vida e Morte, berço e túmulo, experiência e renovação, nada mais são do que simples etapas seqüenciais do progresso espiritual, expressando-se, pujantes, num “hoje imperecível”.

Na verdade, nossa mente é o nosso endereço e nossos pensamentos são as nossas criações de luz e sombra, de liberdade ou escravidão, de paz ou tortura.


Dessa forma, a orientação aqui exposta para uma próspera vivência dos fenômenos mediúnicos, para cada médium e para toda a Humanidade, repousa na vivência dos ensinos de Jesus, inscritos na consciência e no coração de cada um de nós, médiuns ou não...

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Mensagem de um Espírito ao término de uma sessão mediúnica relatada no livro.

Capíitulo 13 - PENSAMENTO E MEDIUNIDADE.

O silêncio se fez profundo e respeitoso.

O grupo esperava a mensagem terminal.

Senti que o ambiente se fizera mais leve, mais agradável.

Sobre a cabeça de Dona Celina apareceu bri­lhante feixe de luz. Desde esse instante, vimo-la extática, completamente desligada do corpo físico, cercada de azulíneas irradiações.

Admirado com o belo fenômeno, enderecei um gesto de interrogação ao nosso orientador, que ex­plicou sem detença:

— Nossa irmã Celina transmitirá a palavra de um benfeitor que, apesar de ausente daqui, sob o ponto de vista espacial, entrará em comunhão conosco através dos fluidos teledinâmicos que o ligam à mente da médium.

— Mas Isso é possível? — indagou Hilário, discretamente.

Aulus ponderou, de imediato:

— Lembre-se da radiofonia e da televisão, hoje realizações amplamente conhecidas no mundo. Um homem, de cidade a cidade, pode ouvir a mensagem de um companheiro e vê-lo ao mesmo tempo, desde que ambos estejam em perfeita sintonia, através do mesmo comprimento de onda.

Celina conhece a sublimidade das forças que a envolvem e entre­ga-se, confiante, assimilando a corrente mental que a solicita.

Irradiará o comunicado-lição, automati­camente, qual acontece na psicofonia sonambúlica, porque o amigo espiritual lhe encontra as células cerebrais e as energias nervosas quais teclas bem ajustadas de um piano harmonioso e dócil.

O Assistente emudeceu, de súbito, fixando o olhar no jacto de safirina luz, que se fizera mais abundante, a espraiar-se em todos os ângulos do recinto.

Contemplei os circunstantes.

O rosto da médium refletia uma ventura mis­teriosa e ignorada na Terra.

O júbilo que a possuía como que contagiara todos os presentes.

Dispunha-me a prosseguir observando, mas a destra do Assistente tocou-me, de leve, recordan­do-me a quietude e o respeito.

Foi então que a voz diferenciada de Dona Ce­lina ressoou, clara e comovente, mais ou menos nestes termos:

— Meus amigos — começou a dizer o instru­tor que nos acompanhava o trabalho a longa distancia —, guardemos a paz que Jesus nos legou, a fixa de que possamos servi-lo em paz.

Em matéria de mediunidade, não nos esque­çamos do pensamento.

Nossa alma vive onde se lhe situa o coração.

Caminharemos, ao influxo de nossas próprias criações, seja onde for.

A gravitação no campo mental é tão incisiva, quanto na esfera da experiência física.

Servindo ao progresso geral, move-se a alma na glória do bem.

Emparedando-se no egoísmo, arrasta-se, em desequilíbrio, sob as trevas do mal.

A Lei Divina é o Bem de Todos.

Colaborar na execução de seus propósitos sá­bios é iluminar a mente e clarear a vida.

Opor-lhe entraves, a pretexto de acalentar caprichos perni­ciosos, é obscurecer o raciocínio e coagular a som­bra ao redor de nós mesmos.

É indispensável ajuizar quanto à direção dos próprios passos, de modo a evitarmos o nevoeiro da perturbação e a dor do arrependimento.

Nos domínios do espírito não existe a neu­tralidade.


Evoluímos com a luz eterna, segundo os desíg­nios de Deus, ou estacionamos na treva, conforme a indébita determinação de nosso «eu».

Não vale encarnar-se ou desencarnar-se sim­plesmente.

Todos os dias, as formas se fazem e se desfazem.

Vale a renovação interior com acréscimo de visão, a fim de seguirmos à frente, com a verdadeira noção da eternidade em que nos deslocamos no tempo.

Consciência pesada de propósitos malignos, re­vestida de remorsos, referta de ambições desvaira­das ou denegrida de aflições não pode senão atrair forças semelhantes que a encadeiam a torvelinhos infernais.

A obsessão é sinistro conúbio da mente com o desequilíbrio comum às trevas.

Pensamos, e imprimimos existência ao objeto idealizado.

A resultante visível de nossas cogitações mais íntimas denuncia a condição espiritual que nos é própria, e quantos se afinam com a natureza de nossas inclinações e desejos aproximam-se de nós, pelas amostras de nossos pensamentos.

Se persistimos nas esferas mais baixas da ex­periência humana, os que ainda jornadeiam nas linhas da animalidade nos procuram, atraídos pelo tipo de nossos impulsos inferiores, absorvendo as substâncias mentais que emitimos e projetando so­bre nós os elementos de que se fazem portadores.

Imaginar é criar.

E toda criação tem vida e movimento, ainda que ligeiros, impondo responsabilidade à consciên­cia que a manifesta.

E como a vida e e movimento se vinculam aos princípios de permuta, é indispen­sável analisar o que damos, a fim de ajuizar quan­to àquilo que devamos receber.

Quem apenas mentalize angústia e crime, mi­séria e perturbação, poderá refletir no espelho da própria alma outras imagens que não sejam as da desarmonia e do sofrimento?

Um viciado entre os santos não lhes reconhe­ceria a pureza, de vez que, em se alimentando das próprias emanações, nada conseguiria enxergar se­não as próprias sombras.

Quem vive a procurar pedras na estrada, cer­tamente não encontrará apenas calhaus (pedaço de pedra) subservientes.

Quem se detenha indefinidamente na medição de lama está ameaçado de afogamento no lodo.

O viajante fascinado pelos sarçais, à beira do caminho, sofre o risco de enlouquecer entre os espinheiros do mato inculto.

Vigiemos o pensamento, purificando-o no tra­balho incessante do bem, para que arrojemos de nós a grilheta capaz de acorrentar-nos a obscuros processos de vida inferior.

É da forja viva da idéia que saem as asas dos anjos e as algemas dos condenados.

Pelo pensamento, escravizamo-nos a troncos de suplício infernal, sentenciando-nos, por vezes, a séculos de peregrinação nos trilhos da dor e da morte.

A mediunidade torturada não é senão o enlace de almas comprometidas em aflitivas provações, nos lances do reajuste.

E, para abreviar o tormento que flagela de mil modos a consciência reencarnada ou desencarnada, quando nas grades expiatórias, é imprescin­dível atender à renovação mental, único meio de recuperação da harmonia.

Satisfazer-se alguém com o rótulo, em matéria religiosa, sem qualquer esforço de sublimação in­terior, é tão perigoso para a alma quanto deter uma designação honorifica entre os homens com menosprezo pela responsabilidade que ela impõe.

Títulos de fé não constituem meras palavras, acobertando-nos deficiências e fraquezas.

Expres­sam deveres de melhoria a que não nos será lícito fugir, sem agravo de obrigações.

Em nossos círculos de trabalho, desse modo, não nos bastará o ato de crer e convencer.

Ninguém é realmente espírita à altura desse nome, tão-só porque haja conseguido a cura de uma escabiose renitente, com o amparo de entida­des amigas, e se decida, por isso, a aceitar a intervenção do Além-Túmulo na sua existência; e ninguém é médium, na elevada conceituação do ter­mo, somente porque se faça órgão de comunicação entre criaturas visíveis e invisíveis.

Para conquistar a posição de trabalho a que nos destinamos, de conformidade com os princípios superiores que nos enaltecem o roteiro, é necessá­rio concretizar-lhes a essência em nossa estrada, por intermédio do testemunho de nossa conversão ao amor santificante.


Não bastará, portanto, meditar a grandeza de nosso idealismo superior.

É preciso substanciali­zar-lhe a excelsitude em nossas manifestações de cada dia.

Os grandes artistas sabem colocar a centelha do gênio numa simples pincelada, num reduzido bloco de mármore ou na mais ingênua composição musical.

As almas realmente convertidas ao Cristo lhe refletem a beleza nos mínimos gestos de cada hora, seja na emissão de uma frase curta, na igno­rada cooperação em favor dos semelhantes ou na renúncia silenciosa que a apreciação terrestre não chega a conhecer.

Nossos pensamentos geram nossos atos e nos­sos atos geram pensamentos nos outros.

Inspiremos simpatia e elevação, nobreza e bon­dade, junto de nós, para que não nos falte amanhã o precioso pão da alegria.

Convicção de imortalidade, sem altura de es­pírito que lhe corresponda, será projeção de luz no deserto.

Mediação entre dois planos diferentes, sem ele­vação de nível moral, é estagnação na inutilidade.

O pensamento é tão significativo na mediu­nidade, quanto o leito é importante para o rio.

Ponde as águas puras sobre um leito de lama pú­tnida e não tereis senão a escura corrente da vi­ciação.

Indubitavelmente, divinas mensagens descerão do Céu à Terra.

Entretanto, para isso, é imperioso construir canalização adequada.


Jesus espera pela formação de mensageiros humanos capazes de projetar no mundo as mara­vilhas do seu Reino.

Para atingir esse aprimoramento ideal é im­prescindível que o detentor de faculdades psíquicas não se detenha no simples intercâmbio.

Ser-lhe-áindispensável a consagração de suas forças às mais altas formas de vida, buscando na educação de si mesmo e no serviço desinteressado a favor do próximo o material de pavimentação de sua pró­pria senda.

A comunhão com os orientadores do progresso espiritual do mundo, através do livro, nos enrique­ce de conhecimento, acentuando-nos o valor men­tal; e a plantação de bondade constante traz con­sigo a colheita de simpatia, sem a qual o celeiro da existência se reduz a furna de desespero e desânimo.

Não basta ver, ouvir ou incorporar Espíritos desencarnados, para que alguém seja conduzido à respeitabilidade.

Irmãos ignorantes ou irresponsáveis enxa­meiam, como é natural, todos os departamentos da Terra, em vista da posição evolutiva deficitá­ria em que ainda se encontram as coletividades do Planeta e, muita vez, sem qualquer raiz de perversidade propriamente dita, milhares de almas, despidas do envoltório denso, praticam o vampi­rismo junto dos encarnados invigilantes, simples­mente no intuito de prosseguirem coladas às sen­sações do campo físico das quais não se sentem com suficiente coragem para se desvencilharem.

Toda tarefa, para crescer, exige trabalhadores que se dediquem ao crescimento, à elevação de si mesmos.

Isso é demasiado claro em todos os planos da Natureza.

Não há frutos na árvore nascente.

A madeira não desbastada é incapaz de servir, com eficiência, ao santuário doméstico.

A areia movediça não garante a sustentação.

Não se faz luz na candeia sem óleo.

O carro não transita com êxito onde a picare­ta ainda não estruturou a estrada conveniente.

Como esperardes o pensamento divino, onde o pensamento humano se perde nas mais baixas cogitações da vida?

Que mensageiro do Céu fará fulgir a mensa­gem celestial em nosso entendimento, quando o espelho de nossa alma jaz denegrido pelos mais in­feriores dos interesses?

Em vão buscaria a estrela retratar-se na lama de um charco.

Amigos, pensemos no bem e executemo-lo.

Tudo o que existe dentro da Natureza é a idéia exteriorizada.

O Universo é a projeção da Mente Divina e a Terra, qual a conheceis em seu conteúdo político e social, é produto da Mente Humana.

Civilizações e povos, culturas e experiências constituem formas de pensamento, através das quais evolvemos, incessantemente, para esferas mais altas.

Atentemos, pois, para a obrigação de auto-aperfeiçoamento.

Sem compreensão e sem bondade, irmanar-nos-emos aos filhos desventurados da rebeldia.

Sem estudo e sem observação, demorar-nos-emos indefinidamente entre os infortunados ex­poentes da ignorância.

Amor e sabedoria são as asas com que faremos nosso vôo definitivo, no rumo da perfeita comunhão com o Pai Celestial.

Escalemos o plano superior, instilando pensa­mentos de sublimação naqueles que nos cercam.

A palavra esclarece.

O exemplo arrebata.

Ajustemo-nos ao Evangelho Redentor.

Cristo é a meta de nossa renovação.

Regenerando a nossa existência pelos padrões dEle, reestruturaremos a vida íntima daqueles que nos rodeiam.

Meus amigos, crede!...

O pensamento puro e operante é a força que nos arroja do ódio ao amor, da dor à alegria, da Terra ao Céu...

Procuremos a consciência de Jesus para que a nossa consciência lhe retrate a perfeição e a beleza!...

Saibamos refletir-lhe a glória e o amor, a fim de que a luz celeste se espelhe sobre as almas, como o esplendor solar se estende sobre o mundo.

Comecemos nosso esforço de soerguimento es­piritual desde hoje e, amanhã, teremos avançado consideravelmente no grande caminho!..

Meus amigos, meus irmãos, rogando a Jesus que nos ampare a todos, deixo-vos com um até breve.

A voz da médium emudeceu.

Sensibilizados, reparamos que, no alto, se apa­gara o jorro brilhante.

Raul Silva, em prece curta, encerrou a reunião.

Enlaçamos Clementino às despedidas.

—  Voltem sempre — convidou-nos gentil.

Sim, sim, continuaríamos aprendendo.

E, lado a lado com o nosso orientador, reti­ramo-nos, felizes, como quem sorvera a água viva da paz, na taça da alegria.